A China funciona.
Tudo em ordem.
Tem quem goste. Eu gostei.
Sem o ruído do discurso. Não vi ninguém discutindo esquerda ou direita. Nem pode.
Enquanto o Ocidente se afoga em narrativas, lá o que importa é o resultado.
Deo Xiaoping (Esse cara que a gente deveria estudar, e não o Mao), dizia:
“Não importa se o gato é branco ou preto, importa se ele caça o rato”
Não é sobre ideologia, é sobre funcionalidade.
O pensamento chinês é uma síntese entre o confucionismo, o taoísmo e o capitalismo mais pragmático do planeta — uma combinação improvável que deu certo.
O confucionismo moldou o caráter coletivo: a busca por uma vida virtuosa, o respeito à hierarquia, o senso de dever.
O taoísmo ensinou o caminho de baixa resistência — o wu wei, o agir sem forçar, o fluir com a corrente.
E o capitalismo chinês juntou tudo isso num motor movido por paciência e objetivo claro.
A China sempre foi a nação mais desenvolvida do mundo, os últimos 100 anos que não foram, são vistas por eles como um mero “acidente de percurso”.
E que agora, estão recuperando seu lugar de destaque.
O resultado é um país que pensa em décadas, não em trimestres.
Que valoriza o progresso coletivo mais do que o brilho individual.
E que não tem vergonha de lucrar.
Deng Xiaoping libertou o país dessa culpa.
Disse: “Enriquecer é glorioso.”
E o povo acreditou.
Na China, ninguém odeia bilionários — desde que enriqueçam de forma justa, cuidando dos seus funcionários e contribuindo com o progresso.
Lá, o sucesso é um bem público.E a disciplina é um traço cultural, não um castigo.
Nas cidades em que estive — Hong Kong, Xangai, Shenzhen, Guangzhou, Beijing — tudo parece fruto de um mesmo princípio: ordem, estabilidade e eficiência.
O transporte funciona. As ruas são limpas. As pessoas seguem regras sem parecer oprimidas.
Quando o Lincoln, da China Link, me sugeriu conhecer a China, confesso que fui movido mais pela curiosidade do que qualquer outra coisa.
Eu sou um capitalista convicto.
Eu esperava um país fechado, tenso, ideológico. Uma versão distópica do capitalismo com medo de ser feliz.
Mas encontrei o oposto.
Encontre leveza. Ordem. Um povo disciplinado, mas sorridente. Uma nação que não vive de discurso, vive de resultado.
O Lincoln foi meu guia nessa jornada, e sou genuinamente grato.
Ele me mostrou não só o que a China faz, mas como ela pensa.
E entender como um país pensa muda tudo: você começa a ver o mundo não mais em termos de certo e errado, mas de fluxo e propósito.
Eu esperava encontrar um povo oprimido.
Eu encontrei um povo feliz, brincalhão, trabalhador.
A minha guia falou: “É só não falar do governo, e tá tudo certo”
Me parece um bom acordo.
Hong Kong, que é a cidade mais “ocidental” da China, achei a menos desenvolvida.
Mais feia, mais poluída. Nada comparável ao Brasil, mas nada comparável a China também.
O continente pareceu mais moderno que a ex-colônia — e isso diz muito sobre o tipo de sistema que prospera quando há propósito comum.
O capitalismo chinês é taoísta.
Ele entende que resistir demais ao fluxo da realidade custa caro.
Por isso, as empresas jogam o jogo do tempo longo.
Shein, o TikTok, a BYD, a Luckin Coffee — todas começaram perdendo dinheiro.
Vendem barato, até de graça, para criar hábito.
Primeiro formam o comportamento, depois constroem o lucro.
Elas não medem sucesso em faturamento, mas em repetição.
Não querem ganhar no trimestre, querem mudar o padrão mental do consumidor.
Querem ganhar não no mês que vem, mas em 50 anos.
É o mesmo princípio do Tao:
o bambu é mais forte que o carvalho, porque se curva ao vento.
Pensei muito na minha mãe enquanto observava isso.
Ela foi corretora de seguros por mais de 30 anos.
Nos primeiros anos, prosperou. Depois, o mercado mudou — e ela ficou para trás.
Trabalhava cada vez mais, com cada vez menos resultado.
Era honesta, esforçada, disciplinada. Mas vivia batendo de frente.
Aos 64 anos, me disse:
“Talvez eu devesse ter feito outra coisa.”
Essa frase me atravessou.
Ela viveu fora do caminho do “menor esforço”
O Tao ensina que quando algo exige esforço desproporcional, é sinal de desalinhamento.
O rio não empurra a pedra. Ele a contorna.
E no fim, chega ao mar.
Na minha vida, percebi que tudo que deu certo veio com fluidez.
Não porque foi fácil, mas porque estava alinhado.
Usando um principio cristão:
“Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito.”
Quando estamos agindo de acordo com nosso propósito, entramos num fluxo favorável.
Sempre que algo ficava complexo demais, eu buscava o caminho de menor resistência.
E invariavelmente, era o certo.
A China é isso em escala continental: um país inteiro que entendeu o valor de não forçar.
Eles não lutam contra o capitalismo, se adaptam, seguem o fluxo.
“É isso que faz crescer? Vamos por aqui”
Não discutem o que é “certo” ou “errado”, discutem o que funciona.
Não buscam vencer o mundo pela retórica, mas pelo resultado.
Talvez seja hora de aprendermos com os chineses.
Em vez de tentar controlar o rio, aprender a fluir com ele.
Em vez de buscar atalhos, aceitar que algumas coisas levam tempo.
Em vez de brigar contra o que é difícil, mudar de direção.
Pensar em 50 anos, não em trimestres.
“Com tempo e paciência, a folha da amoreira se torna seda.” – Provérbio Chines
Um abraço, ainda capitalista e com amor e paz no coração.
Fernando Miranda
Baita reflexão!